terça-feira, 23 de outubro de 2007

"Não conseguia compreender como conseguira penetrar naquilo sem ter consciência e sem o menor policiamento: eu, que confiava nos meus processos, e que dizia sempre saber de tudo quanto fazia ou dizia. A vida era lenta e eu podia comandá-la. Essa crença fácil tinha me alimentado até o momento em que, deitado ali, no meio da manhã sem sol, olhos fixos no teto claro, suportava um cigarro na mão direita e uma ausência na mão esquerda. Seria sem sentido chorar, então chorei enquanto a chuva caía porque estava tão sozinho que o melhor a ser feito era qualquer coisa sem sentido. Durante algum tempo fiz coisas antigas como chorar e sentir saudade da maneira mais humana possível: fiz coisas antigas e humanas como se elas me solucionassem. Não solucionaram. Então fui penetrando de leve numa região esverdeada em direção a qualquer coisa como uma lembrança depois da qual não haveria depois. Era talvez uma coisa tão antiga e tão humana quanto qualquer outra, mas não tentei defini-la. Deixei que o verde se espalhasse e os olhos quase fechados e os ouvidos separassem do som dos pingos da chuva batendo sobre os telhados de zinco uma voz que crescia numa história contada devagar como se eu ainda fosse menino e ainda houvesse tias solteironas pelos corredores contando histórias em dias de chuva e sonhos fritos em açúcar e canela e manteiga."

(trecho do conto Iniciação - Caio Fernando Abreu)




sorrisos insuficiêntes.
cartas com sons coloridos. luzes amarelando os pingos de chuva.
convites pra saciar fomes insaciaveis. restos de esperanças espalhados pelo chão.
lembranças mornas escorrendo do chuveiro. prato frio de frustração amarga.
pensar, como um ritual, antes de dormir: que dia triste.
ausência total de sentido.
covarde! covarde! covarde! (: a vida berrando em meu ouvidos cansados.)

Um comentário:

Anônimo disse...

vai passar, tu sabes que vai passar...